O que é ser não-binárie? Um guia sobre a identidade na comunidade LGBTQIA+

Entender também faz parte da luta pelos direitos de todes. Aqui você vai encontrar maneiras de descobrir, entender e ajudar aquelas pessoas que estão nesse processo.


Arte: Magui


Você provavelmente já ouviu esse termo algumas vezes dentro da comunidade e no decorrer do tempo, a não-binariedade tem se expandido cada vez mais para novos horizontes.

A identidade não-binária refere-se a pessoas que não pertencem a um gênero exclusivamente binário. Essas pessoas não se prendem em estereótipos criados em cima dos padrões de gênero impostos no que entendemos como masculino e feminino.

É comum surgir dúvidas e perguntas sobre o assunto, até porque uma vida bem vivida é uma vida com questionamentos, não é mesmo?

Então vamos lá!


O que significa ser uma pessoa não-binária?

A sociedade que vivemos define as pessoas por seus gêneros desde antes de nascer, e seguem a vida se baseando nesses padrões. Isso é difícil para as pessoas que não se encaixam e se enxergam nesse cenário conservador.

É complicado tentar caber numa caixa que nos foi imposta desde nosso nascimento, e é uma grande libertação entendê-la e deixá-la para trás.

A não-binariedade na comunidade LGBTQIA+ é uma das belezas da vida. Ninguém é igual a ninguém, e é injusto pensar que todas as pessoas no mundo seguirão à risca todos os padrões impostos.

“Pessoas que vão além do gênero que lhe foi designado”, essa é uma frase esclarecedora, que abrange tanto pessoas trans quanto não binárias.

E para falar a verdade, a identidade não binária surgiu há muito tempo, e vem sendo discutida com fervor e grande apoio. O termo é capaz de abranger todas as pessoas que antes estavam deixadas de escanteio.




Quais os gêneros dentro da não-binariedade?

Há diversas identidades, e cada uma com sua particularidade. Os gêneros conhecidos como binários são o masculino e o feminino, e existem muitas identidades englobadas no termo guarda-chuva "não binário".

Aqui abaixo vai uma listinha com algumas identidades conhecidas:

Agênero: caracterizado pela ausência de gênero;

Andrógine: uma linda mescla de feminino com masculino;

Neutrois: identidade neutra, mas pode haver características do feminino e o masculino;

Bigênero: identidade de gênero dupla, e a pessoa que se identifica com ela, tem ambos os gêneros binários.

Poligênero: essa identidade de gênero engloba diversas outras em uma só;

Gênero-fluído: a pessoa que possui essa identidade, transita entre os gêneros com facilidade.


Como devo tratar essa pessoa?

Esse é um assunto preocupante para muitas pessoas. Mas a resposta é simples: pergunte! Parece loucura, mas é completamente normal e respeitoso.

Você pode optar por fazer perguntas simples como: Como devo te chamar? Qual seu nome? Que pronome devo usar ao me referir a você? Ao invés de supor pronomes. Isso pode acabar piorando a situação e magoando as pessoas imensamente.

O respeito é o maior aliado nesta luta! Então surge a dúvida, “elu me disse que prefere ser chamade neutramente”, como fazer isso?

Para isso foi criada a nomenclatura neutra, que faz as pessoas se sentirem à vontade. Essa forma de linguagem é muito mais antiga do que se pensa. No latim, a palavra illud dizia respeito ao gênero neutro e estaria em um lugar além do “ela” e “ele”. Ao longo dos anos, infelizmente isso foi perdido.

Muito ao contrário do que é descrito nas redes sociais, como incluir um “X” no final, a linguagem neutra não é nenhum bicho de sete cabeças.

Ela se deriva diretamente dos pronomes. Os mais usados são “ela” e “ele”, representando o feminino e masculino.

A linguagem neutra, porém, é escrita como “elu/delu”, capaz de incluir pessoas que não se identificam, ou se sentem completamente desconfortáveis com os outros pronomes, evitando que assimile a identidade dessas pessoas de acordo com sua aparência.

A substituição é respeitosa e inclusiva, e a maior maneira de se aprender a usá-la é perguntando e colocando em prática.

Esse vídeo do Igor Saringer explica de forma didática e fácil sobre o assunto:


O gênero tem algo a ver com sexualidade?

Definitivamente não! Pode ser bem frequente pensarmos que os dois estão relacionados, e em certo ponto pode estar, ao fazer parte da diversidade LGBTQIA+.

Mas o que devemos nos atentar sempre é que o sexo biológico e identidade de gênero não são a mesma coisa. Uma não pauta a outra para definir a identidade de alguém.

O gênero é a maneira como nos enxergamos no mundo, como preferimos nos expressar e sermos tratades. A sexualidade por outro lado nos mostra nossos desejos íntimos, por quem nos sentimos atraídes ou não.


Nossa sociedade foi construída sobre bases frágeis e preconceituosas, mas a base da luta pela diversidade ultrapassa essas barreiras.

A linguagem sempre mudou, tanto a escrita quanto a falada.Seria muito estranho falarmos como há cem anos, não?

Infelizmente, sempre haverá preconceitos, mesmo que pequenos e escondidos aqui e ali.

O Brasil é um país que se diz conservador, e na época que vivemos agora, tudo parece mais difícil do que antes. Mas se vivermos à base de aprovações, jamais seremos quem realmente somos.

Por isso, uma dica é: procure se rodear de pessoas que lutam pela mesma causa que você, com os mesmo interesses.

Juntes nós somos muito mais fortes!


Será que alguém se sente como eu?

Durante toda nossa vida, esse questionamento tende a aparecer em nossos pensamentos vez ou outra. E a resposta é sim, sempre há alguém que se sente como nós, talvez ainda não a conheçamos, mas esses pensamentos nos conectam.

Por isso fiz algumas perguntas simples para Miranda, um dos voluntáries responsáveis pelo design e artes magníficas da Valejo.

Ele tem 25 anos, também é diretor de arte no Instituto de Cultura, Arte e Memória LGBTQIA+ e web designer no Laboratório de Políticas Públicas e Internet - LAPIN.



Uma das primeiras perguntas foi sobre sobre si mesmo, como se reconheceu, e Miranda disse com sinceridade:

“Apesar de ter crescido com pessoas LGBTQIA+ e dentro de uma família que sempre falou muito abertamente sobre a heterocisnormatividade, durante a maior parte da minha vida eu não me permitia parar pra pensar sobre minha construção identitária.

Hoje vejo que essa resistência funcionava como um mecanismo de defesa porque no fundo sabia que me enxergar e me aceitar seria um caminho não convencional e difícil.’’