• Helena Vicentini

O ORGULHO LGBTQIA+: JUNHO, O QUE NÓS TEMOS A CELEBRAR?

O que nós temos para celebrar? No ano passado, 237 pessoas LGBTQIA+ foram vítimas de morte violenta no Brasil: 224 homicídios (94,5%) e 13 suicídios (5,5%). Só nos quatro primeiros meses de 2021, 56 pessoas trans foram assassinadas no país.

Arte: Magui


Os números são alarmantes. Relatórios das Agências internacionais de Direitos Humanos denunciam que são assassinadas mais pessoas LGBTQIA+ no Brasil do que nos 13 países do Oriente e África onde persiste a pena de morte contra essas pessoas.


Além da violência física, o preconceito e a discriminação também aparecem em outros cenários. No mercado de trabalho, os atos podem ser identificados em momentos que vão desde a (não) contratação até a impossibilidade de convivência diária, em razão de um ambiente extremamente hostil.


Por esses motivos, é comum, como um mecanismo de defesa, que a pessoa mude a forma de se vestir, de se expressar ou oculte sua orientação sexual, manipulando a sua própria identidade para evitar situações de discriminação.


É importante lembrarmos, também, que apesar de todas as reivindicações do movimento, a população LGBTQIA+ ainda não foi incluída no censo nacional do IBGE. Consequentemente, todos os indicadores que a envolvem são produzidos pela Academia, instâncias governamentais e pela própria comunidade.


Não basta comemorar as conquistas e direitos adquiridos nos últimos anos, vindos especialmente do Poder Judiciário. É preciso ir além, e perceber a negligência das outras esferas, como por exemplo, as Políticas Públicas direcionadas à comunidade LGBTQIA+, bem como a hostilidade das redes sociais.


É como se toda dor pudesse ser substituída pelas cores do arco-íris


No mês de junho, é como se todo esse cenário desaparecesse e todos se vestissem com as cores do arco-íris para exaltar a diversidade e celebrar o orgulho LGBTQIA+. Com a bandeira do movimento hasteada, jargões como "diga não ao preconceito" e "love is love" estão por toda parte.


Mas, é preciso olhar para trás e lembrar que há mais de 50 anos, especificamente em 28 de Junho 1969, na cidade Nova Iorque (EUA) acontecia a famosa revolta de Stonewall: o único caminho possível contra a repressão policial, vigilante de um código moral conservador. A data marca o calendário como O Dia Internacional do Orgulho LGBQIA+.


O que aconteceu impulsionou a organização de inúmeros ativistas e, também, dos movimentos sociais. Mas, ao contrário do que muitas versões fazem parecer, esse não foi, cronologicamente, o primeiro ato de resistência da comunidade.


Celebrar o Orgulho LGBQIA+ é sim sobre amor e diversidade, mas é acima de tudo sobre enfrentar um sistema de injustiças que tentam apagar existências.


A infinidade de postagens, cupons de descontos, produtos temáticos e todo o apoio mercadológico, se desacompanhados de transformação social, acabam esvaziando o sentido da luta de um movimento inteiro!


Nem pareceu ser mês do orgulho LGBTQIA+


Por mais que muitas empresas tenham investido em campanhas cheias de arco-íris e muita purpurina, infelizmente no Brasil algumas situações vieram à tona, revelando a intolerância de um grupo de pessoas que não estavam contentes em celebrar o significado da data.


Durante uma live com influencers cristãos, a ex-policial e tiktoker, Michelle Brea passou por uma série de ataques transfóbicos, por motivos partidários e ideológicos, chegando a ter seu pronome propositalmente ignorado diversas vezes, sendo chamada de “o” Michelle.


Nesse mês, outras mulheres trans e travestis também passaram por situações de constrangimento e ataques virtuais, envolvendo “brincadeiras”, que podem ser lidas, muitas vezes, como um incentivo às suas mortes.


Como resultado de intolerância e ódio, no último dia 24, uma mulher trans teve fogo ateado em seu corpo. Manchetes relatam como tentativa de homicídio, mas sabemos que é muito mais do que isso.


Com o fim de junho, o respeito deve permanecer. Todos os dias são (sobre)viver e se orgulhar!



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