Indígena LGBTQIA+: uma vida apagada pelo preconceito

Perceber a interseccionalidade no movimento é o primeiro passo para mudar um padrão problemático. Podemos falar sobre isso?




A LGBTfobia como herança da colonização

Em 1614, acontecia o primeiro crime de homofobia registrado no Brasil. A vítima era conhecida como Tibira do Maranhão, um indígena tupinambá. A execução ocorreu de maneira violenta, e a mensagem da Igreja Católica foi clara: “o pecado da sodomia deveria ser eliminado junto com ele”.


É importante pontuar que o termo “tibira” é utilizado pelos povos originários para se referir à pessoa homossexual. Este fato destaca uma questão importante: a diversidade de gênero e a orientação sexual estão ligadas ao ser humano, não sendo resultado de influência social..


Mais do que isso: antes da colonização brasileira, a homoafetividade era natural para esses povos, e existia uma maior fluidez em relação ao gênero. Essa liberdade incomodou os jesuítas, que chamavam esses comportamentos de “sodomia indígena”.


Por outro lado, não há registros de que essa diversidade não era bem aceita pelas pessoas nativas na época. De acordo com os documentos transcritos por cronistas do século XVI, havia certa liberdade cultural nas homoafetividade e nos papéis de gênero.


Hoje, essa realidade é diferente em algumas aldeias, mostrando que a LGBTfobia veio com a colonização.


A invasão portuguesa não foi pacífica, como já sabemos. Aconteceu acompanhada de violências físicas e uma opressão cultural que deixa marcas até hoje. Muitas populações indígenas tiveram sua ancestralidade apagada.


Sendo assim, a dominação colonial suprimiu as identidades originárias, instaurando um monoculturalismo que consagrou a cultura européia cristã como modelo universal.


Com princípios conservadores baseados na bíblia, a cultura imposta durante o Brasil colonial passou a fazer parte da crença de muitos povos nativos, que transmitiram esses conhecimentos aos seus descendentes. Desse modo, as diversas culturas originárias se moldaram ao domínio europeu para sobreviver.


Mas essa dominação não foi simplesmente aceita com facilidade. Havia uma forte resistência indígena, que acontecia principalmente através de fugas dos aldeamentos e ataques em grupo às fazendas onde eram escravizados.





A exclusão dupla

A sigla completa da comunidade é LGBTQQICAPF2K+. O número 2, especificamente, representa a categoria “dois-espíritos”, que se refere às pessoas indígenas que desempenham mais de um papel de gênero em suas comunidades.


Esse termo se popularizou nos Estados Unidos, mas também foi adotado no Brasil, pois mesmo que não seja uma representação cultural de todas as aldeias indígenas do país, ainda faz parte da cultura de alguns povos nativos.


É necessário dizer que a população indígena brasileira não é uma só. Existem cerca de 305 etnias e 274 idiomas diferentes, segundo o último Censo divulgado. A partir disso, perceber que esses grupos são diversos culturalmente é o primeiro passo para entender suas individualidades.


Apesar de incluir um termo referente a esse grupo, o movimento nem sempre considera a existência e vivência indígena. Essa falta de interseccionalidade exclui grupos que se sentiram excluídos a vida inteira. A pessoa nativa tem seu protagonismo negado, sendo mera coadjuvante em sua luta. Assim, o propósito da comunidade não é cumprido.


Esse apagamento duplo é uma das principais pautas levantadas por ativistas indígenas LGBTQIA+. Dentre as discriminações recorrentes sofridas, há a hipersexualização e espetacularização da presença dessas pessoas nos espaços. Por isso, rever comportamentos individuais e coletivos é fundamental para mudar essa realidade.


Siga as pessoas protagonistas dessa luta

Para acompanhar as demandas e a luta indígena de perto, separamos alguns perfis de indígenas LGBTQIA+ artistas, ativistas e também páginas influentes:


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